CURIOSIDADES

Fabiana Murer - Salto com Vara

CURIOSIDADES

9 de maio de 2016

As varas no Antigo Egito

Os egípcios já praticavam a arte de escalar varas, talvez a demonstração mais antiga do que se tornaria o salto com vara dos nossos tempos. Relevos antigos encontrados no Templo Pylon, em Luxor, mostram acrobatas escalando varas como parte de um ritual religioso em honra ao deus Min. Segundo Wolfgang Decker, no livro Esports e Jogos do Egito Antigo, a prática já existia no Antigo Reinado (2686 a 2181 a.C.). Assim, é justo dizer que a humanidade vem tentando desafiar as leis da gravidade com o auxílio de uma vara há muito, muito tempo.

 

Varas e cavalos

Vasos e objetos de arte encontrados em escavações mostram que os gregos da Antiguidade, pais dos Jogos Olímpicos, já davam saltos com o auxílio de uma vara, mas nem de longe como prática esportiva. As varas eram usadas para pular no lombo de cavalos!

 

As lanças da Antiguidade e Idade Média – precursoras das varas atuais?

As lanças usadas em batalhas na Antiguidade e Idade Média tinham vários formatos e medidas e é lógico supor que, a certa altura, os soldados tenham percebido que as armas também podiam ser utilizadas para transpor trincheiras, fossos, riachos e muros baixos.

 

Irlanda

Existem registros de que o salto com vara já era disputado em eventos esportivos na Irlanda em 1829 a.C. Dada a topografia da zona rural, é provável que a necessidade de atravessar riachos, córregos e outros obstáculos tenham levado os antigos celtas a tentarem usar varas para transpor essas  barreiras naturais – daí a incorporar o salto com vara aos eventos esportivos foi um passo.

 

Mais antigos que a Olimpíada

Os irlandeses tinham sua própria versão dos Jogos Olímpicos, bem mais antiga que a dos gregos. Nesses Jogos – os primeiros registros datam de 1829 a.C, enquanto na Grécia só surgiriam em 776 a.C. – eram disputadas provas como arremesso de pedras e de rodas de carroça, salto triplo, em altura e salto com vara.

 

Mensageiros com varas

Na Idade Média, corredores profissionais, empregados como mensageiros, carregavam sempre bastões longos e resistentes. A ferramenta tinha várias utilidades. Era usada para carregar provisões, amarradas em uma das pontas, como arma de defesa e também para ajudar a transpor obstáculos ao longo do caminho. Em seu livro A Evolução dos Esportes, Ramy B. Deschner escreveu: “Nesses mensageiros encontramos os predecessores dos modernos saltadores com vara.”

 

Na lama

Na edição de 1875 de seu livro Esportes Rurais Britânicos, John Walsh recomenda a utilização de um disco de madeira, com 10 a 15 centímetros de diâmetro, na ponta da vara, para impedi-la de mergulhar na lama!

 

Da distância para a altura

O uso prático do salto com vara em larga escala pode ser traçado até as terras pantanosas das províncias ao longo do litoral do Mar do Norte e aos charcos de Cambridgeshire, Lincolnshire e Norfolk, na Inglaterra. Por causa dos muitos canais que cortam a região e da distância entre as pontes, cada casa mantinha uma pilha de varas para serem usadas na transposição dos canais. Provavelmente, foi essa a razão de o salto com vara ter sido praticado primeiro para vencer distâncias e só mais tarde superar alturas. Nos Estados Unidos, em 1910, o salto com vara em distância ainda era praticado.

 

Cada atleta tem varas para chamar de suas

Diferentemente de outras provas do atletismo – peso, disco e dardo – em que a organização do torneio fornece os implementos, no salto com vara cada atleta leva o próprio material para a competição. Normalmente, os atletas carregam um ‘estojo’ gigante, com dez varas dentro. Isso se justifica pelo alto custo do material. Seria inviável a organização comprar varas para todos os atletas. E também pela tecnologia. A vara é implemento de uso pessoal, a partir das características de cada atleta – peso, altura e técnica utilizada.

 

Varas que não envergavam

O século XIX e início do XX formaram a era das varas fixas. O salto com vara era executado com varas que não envergavam – serviam apenas para os atletas ultrapassarem o sarrafo. Elas eram confeccionadas, predominantemente, de madeira e bambu. As madeiras mais usadas eram a aveleira, o carvalho e o cedro. Um processo com fogo endurecia as varas feitas de madeira. O bambu era usado em seu estado natural. Com uma vara de bambu, o saltador norte-americano Cornelius Warmerdam estabeleceu a marca de 4,77 m em 1942, o recorde mundial que mais perdurou na história do salto com vara: 14 anos.

Apesar disso, vários saltadores utilizaram varas de metal, de aço, cobre e alumínio – fabricadas por empresas britânicas e suecas –, na década de 50. Com uma vara de alumínio, em 1956, o americano Bob Gutowski quebrou o recorde de Warmerdam, com a marca de 4,78 m. Com uma vara de aço, três anos mais tarde, o também americano Don Bragg saltou 4,80 m. Mas eram varas que quebravam e entortavam com grande facilidade.

 

Fim do mundo estático do salto com vara

As primeiras varas felxíveis surgiram em 1952, projetadas pelo engenheiro americano Herb Jenks, um especialista em fibra de vidro que trabalhava para a Browing Arms. As varas foram construídas para se comportarem como fixas, apenas com peso inferior. Curiosamente, Jenks pensou em enrijecer o implemento, que envergava, quando atletas apontaram a flexibilidade do material como algo interessante. O que não se imaginava é que elas iriam mexer radicalmente com a técnica e, como consequência, com os resultados da prova.

Jenks ensinou a técnica para mais dois engenheiros – Dan Heidorn e Steve Chappell – e disseminou a tecnologia das varas flexíveis no mundo até então estático do salto com vara.

Hoje, são vários os fabricantes de varas flexíveis em todo o mundo e entre as mais importantes está a UCS Spirit, fornecedora de varas para a brasileira campeã mundial Fabiana Murer. Foi fundada pelo pupilo de Jenks, Steve Chappell.

Por volta de 1988 surgiram também as varas de fibra de carbono, mais leves e com devolução de energia rápida.

 

Primeira medalha olímpica com vara flexível

A primeira medalha olímpica conquistada com uma vara flexível foi o bronze do grego Georgios Roubanis, nos Jogos Olímpicos de Melbourne/1956. A popularização das varas de fibra de vidro entre os atletas deu-se no fim dos anos 50, início dos anos 60. Nessa época, surgiram grandes saltadores, como o americano George Davies e o finlandês Pentti Nibula, primeiro a ultrapassar a marca dos 5,00 m entre os homens, em 1963. O primeiro campeão olímpico a usar vara flexível de fibra de vidro foi o americano Fred Hansen, nos Jogos de Tóquio/1964.

 

Técnica de salto

Quando o salto era executado com varas fixas, sem flexibilidade, constituía-se, basicamente, de uma corrida veloz e uma entrada com impulsão vertical extrema. Apenas uma pequena parcela da energia cinética total transformada com a corrida era usada. A maior parte da energia era dissipada na colisão da ponta da vara com o encaixe de entrada e no corpo do atleta (ombros e costas, principalmente). Não havia praticamente nenhum tipo de devolução de energia por parte da vara.

 

‘Modelos de saltos’

O saltador polonês Tadeusz Slusarski, campeão olímpico nos Jogos de Montreal/1976, já saltava como na atualidade. O modelo europeu foi aprimorado pela escola soviética e seus representantes ilustres, como Sergey Bubka e Maksim Tarasov (Gataulim?). Foi o técnico Vitaly Petrov quem propôs que o atleta deveria deixar o solo antes que a ponta da vara encostasse no anteparo do encaixe. Assim, no momento da transferência de energia para a vara (momento em que a vara encontra o anteparo), o centro de massa do atleta estaria mais alto do que se ele ainda se encontrasse no solo.

Anteparo é o fundo/parede do encaixe, local onde o atleta encaixa a vara para a decolagem.

No modelo americano, não há uma grande preocupação com a elevação do centro de massa na entrada – a transmissão de energia ocorre ainda no solo, antes de o pé de impulso do atleta (a última passada antes de o saltador deixar o solo) perder contato com o chão. Alguns saltadores giram o ombro, na entrada, para maior utilização do braço e da face esquerda do torso (como Tye Harvey, que tem 5,92 m como melhor marca).

 

Fontes:
Leonardo Castro Carneiro/ Escola Waldorf de São Paulo/2001
Illustrated History of the Pole Vault – Jan Johnson, Russ VerSteeg, Ray Kring

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