O INÍCIO DE TUDO

Fabiana Murer - Salto com Vara

O INÍCIO DE TUDO

9 de maio de 2016

Fabiana Murer, das brincadeiras no quintal ao título de campeã do mundo

A saltadora é a única brasileira na história do atletismo a ter duas medalhas de ouro ganhas em Mundiais, indoor e ao ar livre

Fabiana Murer, a mais velha das três filhas de Vanderlei Murer e Neusa Maria de Almeida Murer, passou a infância em Campinas, no interior de São Paulo. O sobrenome Murer é de origem germânica, mas os bisavós chegaram ao Brasil vindos de uma região da Itália que pertenceu à Áustria. A primogênita nasceu em 16 de março de 1981, sob o signo de Peixes. E logo teve a companhia das irmãs Fernanda, dois anos mais nova, e Flávia, a caçula, que tem quatro anos menos. Dividiam as muitas brincadeiras no quintal da casa – jogar amarelinha era uma das favoritas.

Fabiana aprendeu a andar de bicicleta com o pai, Vanderlei, no estacionamento de um supermercado, que não abria nos fins de semana. Depois, andar de bicicleta em família – pais, avós e irmãs –, na Lagoa do Taquaral, virou programa obrigatório e divertido.

Os pais sempre gostaram de esportes e queriam filhas ativas – as meninas foram aprender ginástica artística na escolinha da Prefeitura de Campinas. Aparelhos de ginástica – trave, barra e uma minicama elástica – foram construídos e instalados no quintal pelo pai, Vanderlei, projetista de turbinas de hidroelétricas, e faziam parte dos brinquedos das meninas. Dos 7 aos 17 anos, Fabiana praticou ginástica e disputou competições, mas nunca teve resultados expressivos.

A estatura da mãe Neusa, de 1,57 m, faziam os técnicos apostarem que Fabiana seria pequena. Mas ela puxou ao pai, que tem 1,85 m. As irmãs, Fernanda e Flávia, quando deixaram a ginástica, optaram pela natação. Fabiana, porém, se sentia entediada – para ela, a natação era um esporte muito solitário.

Os estudos seguiram paralelamente aos esportes. Fabiana fez toda a sua formação, da pré-escola ao ensino médio, no Liceu Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora, em Campinas

Em 1997, aos 16 anos, Fabiana acompanhava o pai, Vanderlei, nas corridas dos fins de semana. Certo dia, Vanderlei leu no jornal uma informação sobre uma escola de atletismo em Campinas. Como a filha era boa na corrida, sugeriu a ela que fizesse um teste. E lá foi Fabiana tentar a sorte na Orcampi, em Campinas, um pré-time da Funilense, que, depois, se transformaria no Clube de Atletismo BM&FBOVESPA, sua equipe ainda hoje.

Fabiana fez um teste para o atletismo (corrida de 50 metros, 1.000 metros e salto em distância. Elson Miranda, um dos técnicos que estava aplicando os testes, viu na adolescente longilínea e magrinha, diferente de outras meninas que apareciam para os testes, potencial para o salto com vara. Por causa da ginástica, Fabiana tinha noção do corpo e de espaço, força nos braços. A partir daí, ela passou a dividir a ginástica com o atletismo – praticava ginástica dois dias por semana e outros três dias eram dedicados ao salto com vara.

Assim, Fabiana começou a treinar, com vara de bambu e caindo na caixa de areia. Seis meses depois, em 1998, conquistou índice para ir ao Mundial Juvenil de Anecy (FRA), com um salto de 3,60 m. Com a ginástica, Fabiana tinha o sonho de chegar a disputar uma Olimpíada. Mas o índice para o Mundial mudou tudo e o atletismo ganhou ainda mais espaço em sua vida. Ainda conciliou ginástica e atletismo por um ano, antes de decidir que seguiria no salto com vara.

Ao mudar-se para São Paulo, aos 18 anos, Fabiana decidiu dedicar-se com mais seriedade ao estudo do inglês – isso era fundamental para os planos de então, de estudar e treinar nos Estados Unidos para crescer no atletismo, desenvolver-se no salto com vara. Por duas vezes, em 1999 e 2000, chegou a ir para Jonesboro, treinar na Universidade de Arkansas com o técnico Earl Bell por dois meses. Depois, decidiu que treinaria no Brasil, com o técnico Elson Miranda, mais detalhista. Optou por treinar em São Paulo e deu continuidade aos estudos. Cursou Fisioterapia, na UniABC, em Santo André e é fisioterapeuta formada.

Fabiana viu o salto com vara pela primeira vez na Olimpíada de Atlanta, em 1996, e pensou que deveria ser gostoso cair lá de cima. Mas sabia muito pouco sobre a prova, adotada mundialmente pelas mulheres apenas em 1992 e ainda muito longe de ser conhecida no Brasil.

A jovem atleta tinha coordenação, paciência para trabalhar e esperar o resultado vir, confiança em si mesma.  E precisou mesmo de paciência para mudar radicalmente a sua técnica de salto. Elson, que foi saltador entre 1980 e 1997 (tem 5,02 m como a melhor marca da carreira), procurava um caminho para o desenvolvimento da prova, então tradicional na Europa, mais ao leste, e nos Estados Unidos.

Faltavam conhecimento e material adequado – colchões e varas de melhor qualidade, locais para treinamento, desenvolvimento técnico. Elson procurou a Universidade de Arkansas e o método americano, pesquisou o já desenvolvido salto com vara em Leverkusen (ALE), com o treinador polonês Lesch Klima, mas acabou convencido de que a melhor técnica do mundo era justamente a que levou o ucraniano Sergey Bubka a transformar-se em multirrecordista do salto com vara, uma lenda do atletismo.

Foi então, em 2001, que começou a história da dupla Elson e Fabiana com o técnico ucraniano Vitaly Petrov. “Vou mudar radicalmente, vou mudar tudo o que eu sei. Se o Bubka fez e chegou ao topo… Também vou fazer”, decidiu Fabiana. Bubka, campeão olímpico em Seul/1988, quebrou inúmeras vezes o recorde mundial da prova – sua marca, 6,14 m, obtida em 1994, ainda não foi superada.

No início do aprendizado da técnica de Petrov, Fabiana saltava 3,90 m. Precisou de dois anos certinhos para superar a barreira dos 4 metros e, a partir de 2003, experimentar a evolução que a levaria, oito anos depois, ao topo do ranking mundial, entre as melhores saltadoras de todos os tempos e ao inédito ouro na história do atletismo, no Mundial de Daegu, em 2011, com um salto de 4,85 m.

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